Falou que incomodava ele chegar tarde sem avisar, ele disse que ia melhorar, na semana seguinte aconteceu de novo. Você cobrou de novo, ele prometeu de novo, nada mudou. Depois da quinta vez pedindo a mesma coisa, você não sente que está exigindo demais, sente que está gritando pro vento.
Foi assim que você aprendeu a parar de falar. Não porque deixou de se importar, mas porque cobrar sem ser ouvida cansa mais do que ficar quieta. Hoje você está lavando louça depois do jantar, a conversa esfriou faz uns dez minutos, e você nem tentou puxar assunto sobre o que te incomodou hoje.
Ele tem uma versão diferente do mesmo problema. Passa a semana segurando a irritação, achando que reclamar toda hora é coisa de fraco. Até que numa sexta qualquer, por causa de um prato fora do lugar, fala grosso de um jeito que nem ele mesmo reconhece.
A causa disso não é falta de amor. É um ciclo com duas entradas diferentes que terminam no mesmo lugar. Ela troca a cobrança pelo silêncio. Ele segura até não conseguir mais segurar. Nenhum dos dois foi ensinado a fazer o meio do caminho: falar o que incomoda, na hora certa, sem exagerar e sem engolir.